Se você já ouviu alguma história sobre a origem do vibrador, provavelmente ela envolvia médicos do século XIX tratando mulheres diagnosticadas com "histeria" até que elas chegassem ao orgasmo.
É uma história daquelas que a gente escuta uma vez e nunca mais esquece.
Também não é bem verdade.
Sim, a história do vibrador passa pela medicina. Mas os primeiros aparelhos não foram criados para masturbar mulheres em consultórios. Até chegarmos aos sex toys que conhecemos hoje, teve aparelho para dor, propaganda prometendo quase milagre, muita censura e décadas de gente usando vibradores sexualmente sem poder dizer com todas as letras que era exatamente isso que estava fazendo.
Vamos por partes.
Quem inventou o vibrador?
Um dos nomes mais importantes nessa história é Joseph Mortimer Granville, médico inglês que desenvolveu um aparelho elétrico vibratório em 1883.
Mas ele estava bem longe de pensar no vibrador como conhecemos hoje.
Granville estudava o uso da vibração para aliviar dores e outros desconfortos físicos. Seus trabalhos eram voltados principalmente para homens, e não há registros de que ele tenha criado o aparelho para estimular sexualmente suas pacientes.
Aliás, outros equipamentos baseados em vibração já apareciam naquela época. Alguns eram elétricos, outros funcionavam com manivela, e existiam até máquinas enormes movidas a vapor.
Nada muito parecido com aquele vibrador bonitinho que fica carregando na sua gaveta.
Tá, mas e a história da histeria e o vibrador?
Ela não surgiu do nada.
Durante séculos, "histeria" foi usada para explicar todo tipo de comportamento e sintoma apresentado por mulheres. Ansiedade, irritabilidade, desmaios e questões relacionadas à sexualidade podiam acabar dentro do mesmo diagnóstico.
Em algum momento, ganhou força a versão de que médicos tratavam essas mulheres massageando seus genitais até provocar um "paroxismo", nome usado para aquilo que hoje chamaríamos de orgasmo. O vibrador teria sido inventado para facilitar esse trabalho.
O detalhe é que historiadores que pesquisaram registros médicos da época não encontraram evidências de que isso fosse uma prática comum.
Também não encontraram provas de que o vibrador tenha sido criado para esse fim.
A história ficou famosa. A comprovação, nem tanto.
Antes de ser sex toy, o vibrador era quase um eletrodoméstico
No começo do século XX, aparelhos vibratórios começaram a sair dos consultórios e aparecer em revistas, catálogos e lojas.
E as promessas eram grandes. Eles eram vendidos para aliviar dores, melhorar a circulação, cuidar da pele e tratar vários outros problemas. Alguns chegaram a ser anunciados como aparelhos domésticos para homens e mulheres.
Em 1915, a Associação Médica Americana já estava questionando essa história toda e criticou a indústria pelas promessas feitas em torno dos vibradores.
Mas isso não fez os aparelhos desaparecerem. Eles só encontraram outras formas de chegar até as pessoas.

E ninguém percebeu que dava para usar aquilo para se masturbar?
Percebeu. O que não dava era para anunciar dessa forma.
Naquela época, a masturbação era cercada de muito mais estigma, e existiam leis nos Estados Unidos que restringiam a circulação de conteúdos e produtos considerados obscenos.
Então os vibradores eram massageadores. Só massageadores. Pelo menos oficialmente.
Algumas propagandas usavam textos e imagens sugestivos, sem falar diretamente sobre prazer sexual. Há também registros de médicos comentando o uso de vibradores para masturbação, inclusive por mulheres.
Ou seja: muito antes de o vibrador ser vendido abertamente como sex toy, as pessoas já tinham entendido que aquela vibração servia para outras coisas.
A conversa começa a mudar nos anos 60 e 70
Foi principalmente a partir das décadas de 1960 e 1970 que masturbação e prazer começaram a ganhar um pouco mais de espaço nas discussões sobre sexualidade.
A educadora sexual Betty Dodson foi um dos nomes importantes nessa mudança.
No final dos anos 1960, ela começou a realizar encontros sobre masturbação para mulheres em Nova York e defendia o conhecimento do próprio corpo como parte da autonomia sexual.
E, sim, vibradores entravam nessa conversa.
Dodson também ajudou a popularizar o Hitachi Magic Wand, um aparelho que não tinha sido criado como sex toy. A proposta original era ser um massageador corporal.
As usuárias encontraram outra função.
E funcionou tão bem que o Magic Wand acabou se tornando um dos vibradores mais conhecidos do mundo.
Depois veio o Rabbit
Nas décadas seguintes, a indústria começou a criar produtos cada vez mais pensados diretamente para o prazer sexual.
Nos anos 1980, apareceram nos Estados Unidos vibradores que combinavam estimulação interna e externa. Muitos eram produzidos em formatos de animais, também como uma forma de contornar restrições existentes na época.
Coelho, castor, tartaruga...
E foi justamente o coelho que ficou famoso.
O Rabbit já existia havia alguns anos quando ganhou um empurrão enorme da cultura pop em 1998, depois de aparecer em um episódio de Sex and the City.
Pode parecer uma cena qualquer hoje, mas colocar um vibrador e o prazer feminino no centro da história em uma série daquele tamanho ajudou a levar o assunto para outro lugar.
O vibrador estava deixando de ser aquele "massageador" que todo mundo sabia para que servia, mas ninguém falava.

E chegamos aos vibradores de hoje
De lá para cá, mudou bastante coisa.
Hoje existem vibradores externos, internos, pequenos, grandes, discretos, potentes, controlados por aplicativo e modelos que podem ser usados à distância.
O próprio design dos sex toys mudou.
Durante muito tempo, falar em brinquedo sexual significava pensar quase automaticamente em alguma coisa com formato fálico. Hoje existe uma variedade enorme de produtos desenhados para diferentes anatomias e tipos de estímulo.
E a conversa também começou a mudar.
Vibrador não precisa substituir ninguém. Não significa que falta alguma coisa no sexo. E muito menos precisa aparecer só quando uma pessoa está sozinha.
Pode fazer parte da masturbação e também do sexo acompanhado. Pode ajudar alguém a entender melhor o próprio corpo ou simplesmente experimentar um tipo diferente de estímulo.
Também não é um produto exclusivo para mulheres.
Vibração é vibração. Quem decide onde, como e se quer usar é você.
O vibrador mudou. O tabu também?
Muito. Mas não completamente.
Hoje é bem mais fácil comprar um sex toy, encontrar informação sobre masturbação e falar sobre prazer do que há algumas décadas.
Ainda assim, essas conversas continuam cercadas de vergonha e desinformação para muita gente.
E olhar para a história do vibrador ajuda a entender um pouco de onde isso vem.
Durante muito tempo, prazer sexual precisou aparecer escondido atrás de palavras como tratamento, massageador, saúde e beleza.
Agora podemos chamar vibrador de vibrador. Já é um bom começo...
Perguntas frequentes sobre a história do vibrador
Quem inventou o vibrador?
O nome mais associado à invenção é Joseph Mortimer Granville, médico inglês que criou um aparelho elétrico vibratório em 1883. Mas ele tinha fins terapêuticos, não sexuais.
O vibrador foi criado para tratar "histeria" feminina?
Não há evidências históricas que confirmem essa história. A teoria ficou muito popular, mas pesquisadores não encontraram registros que comprovem o uso de vibradores para provocar orgasmos em pacientes como tratamento médico para histeria.
Qual foi o primeiro vibrador popular como sex toy?
O Hitachi Magic Wand, lançado como massageador corporal, tornou-se muito popular para uso sexual nos anos 1970, especialmente com o trabalho da educadora sexual Betty Dodson.
Por que o Rabbit ficou tão famoso?
O vibrador Rabbit ganhou ainda mais popularidade depois de aparecer em um episódio de Sex and the City, em 1998, levando a conversa sobre vibradores e prazer feminino para a cultura pop.
Fontes e referências
- BELL, Jen. Uma breve história do vibrador. Clue, 2018. Atualizado em 2021.
- GRANVILLE, Joseph Mortimer. Nerve-vibration and excitation as agents in the treatment of functional disorder and organic disease. Churchill, 1883.
- KING, Helen. Galen and the widow: Towards a history of therapeutic masturbation in ancient gynaecology. EuGeStA: Journal on Gender Studies in Antiquity, 2011.
- MAINES, Rachel P. The Technology of Orgasm: “Hysteria,” the Vibrator, and Women’s Sexual Satisfaction. Johns Hopkins University Press, 2001.
- LIEBERMAN, Hallie. Buzz: The Stimulating History of the Sex Toy. Pegasus Books, 2017.
- LIEBERMAN, Hallie. Selling Sex Toys: Marketing and the Meaning of Vibrators in Early Twentieth-Century America. Enterprise & Society, 2016.
- TONE, Andrea. Devices and Desires: A History of Contraceptives in America. Macmillan, 2002.
- KINSEY, Alfred C.; POMEROY, Wardell B.; MARTIN, Clyde E.; GEBHARD, Paul H. Sexual Behavior in the Human Female. Indiana University Press.
- WILLIAMS, Dell; VANNUCCI, Lynn. Revolution in the Garden. Silverback Books, 2005.
